terça-feira, 1 de abril de 2008

Desassossegando.

No que escrevo não acredito.

Estou farto de filosofias, teorias malucas,
que nada, nem ninguém servem. Ou será?

Penso, e canso-me. Pensar pode incomodar
como andar à chuva, mas eu sempre a tratei por amiga.

Sei que não sou ninguém. Sei que sou pouco. Somos todos pouco.
Não servimos de nada, porque somos todos pouco.
Mesmo os que são muito, são pouco.

Ninguém é preciso! Ninguém é mudança.
Cessem todo o esforço. Cesse qualquer espécie de bulício!

Sou pouco e sou nada. Sou sozinho. Sempre o serei.
Estou farto de poucos e de muitos. Sejam e deixem ser...

Estou cheio de ser. E cheio dos outros.
Se fosse eremita, talvez fosse feliz...

Voltou o vazio! Voltou. Andou escondido, rastejou...
Mas voltou. E apoderou-se de mim.

Um misto, um enorme caldeirão de porquês, descrença,
vontades e sonhos. De saber o que fazer e de perguntar porquê.
Fico-me?

Se fosse para o exército, talvez fosse feliz...
Não precisaria de pensar...Lá seria carne para encher,
depois carne para abater...

Sou sozinho. É a verdade cruel. Sou sozinho e vazio.
Se tivesse a beldade loura, que se passeia pelo ecrã,
talvez fosse feliz...

(Porque te passeias assim, beldade loura?
Porque me iludes? Porque te passeias assim, desfilando

sonhos de veludo?)
Falsas, vãs, minímais ilusões?
Não havendo ilusão, num passo de mágica, não há desilusão.
Talvez fosse feliz, se a tivesse...

E o amanhã?
Qual a palavra que rima com presídio?

Fugir? Para onde ninguém nos conhece?
Só nos conhece quem sabe o nosso nome,
e não falo daquele com que nascemos.

(Às vezes, tenho sonhos em que parto bem longe,
de bicicleta...Acabam sempre com um pneu a furar-se...)

Sou um sozinho. Verdadeiro paradigma do solitário.
Um frustrado, um vencido da vida. Derrotado, antes da partida.
Porquê fingir? Porquê fingir? Digam-me!

No que escrevo não acredito.

Não acredito em nada, aliás.
Como nunca aprendi a falar, e mesmo não acreditando em nada,
escrevo. Não percebo o porquê. Acreditem, ou não acreditem,
é tudo o mesmo. O rio corre, e a chuva cai, como ouvia antes.
(Onde estás, ó antes?)

Escrevo, porque penso. E quanto mais penso, atenção agora,
menos vejo sentido para esta coisa vazia e abstracta.

Cria-se?

(A vida é um jogo, em que convém pensar apenas o suficiente,
para não a achar um desperdício, e viver impecavelmente
contente.)

O escrever, acreditem ou não, já o disse, é o mesmo, é um divertimento,
dum ser, eu, com tempo a mais, imaginação a menos
e pensamentos ruins e baixos.

Eu sei que riem de mim.
Sei também que não há fogo, nem inferno, não há azul,
nem céu.
Há os que são pouco, e os que são muito, mesmo sendo pouco.
Só.

Além? Não. Agora.

Toda a dor, é como a alegria.
Efémera e passageira.

(Certa vez, discutia, aterafadamente,
com uma minha colega.
Pedi-lhe desculpa por existir. Calou-se.
Disse-me que não havia desculpa para ser.
É-se, apenas. Ri como quem queria chorar.)

Antigamente zangava-me muito.
Inútil! Ser poderoso não é controlar as próprias zangas, irritações e outras coisas que tais.
Ser poderoso é controlar as zangas dos outros.
Mas, como tudo, ser poderoso é ser pouco.

Angústia de não aceitar o que sou.
E de saber que o devia fazer...

Perguntam-me porque não acredito em nada.
Não o sei. Acho difícil acreditar! Faço minha fé,
não acreditar. O resto? Faz-me vomitar...

Não, não. Ninguém sabe! Nascemos e passamos,
como o rio. Cansar? Só depois!
Febre do além? Naa... Está muito longe.


(No outro dia, perguntaram-me se eu estava bem.
Está, respondi.)


Ao escrever, ecoam-me no pensamento,
quatro simples versos.
"O poeta é um fingidor."
... Vocês sabem o resto

E perco-me no doer, no sentir, e no pensar...

2 comentários:

António disse...

Está boa esta tua composição.. fizeste-me lembrar um bom bocado de mim e daquilo que também escrevo. Até na forma como escreveste, pontuação inclusivé! Bem.. e pensava eu que afinal o problema era meu.. ainda bem que encontrei este teu espaço. Continua neste bom caminho, tenta fugir um pouco de ti e escreve sobre tudo o mais que não merece atenção.. vais ver que descobres muita coisa útil e muita tela para pintar ao teu estilo. Força e um abraço.. vou passando por cá.

Alexandre Fonseca disse...

obrigado.
passe sempre.
se tiver um blog, gostava de o ver.
abraço.