quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Ditadorzinho.

É um daqueles seres provincianos
(no sentido de ser iletrado, sem cultura)
com poder para coisa nenhuma, com danos
sem engano, e cargo por ganância e usura!

E eu pergunto-me por quantos mais anos
Por quantos mais anos, esta amargura
de ver um reles aprendiz dos antigos tiranos
a fingir-se perito na sua reles a dita, a dura!

E se o ditadorzinho ficar irado, possesso!
Mesmo que me instaure uma queixa, um processo
Mesmo que me fique com os meus últimos cobres

Mesmo que me faça quebrar até aos cacos
Não, não serei mais um dos pobres...
Não, não serei mais um dos fracos!...

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Ítaca.

Quando começares a tua viagem para Ítaca,
reza para que o caminho seja longo,
cheio de aventura e de conhecimento.
Não temas monstros como os Ciclopes ou o zangado Poseidon:
Nunca os encontrarás no teu caminho
enquanto mantiveres o teu espírito elevado,
enquanto uma rara excitação agitar o teu espírito e o teu corpo.
Nunca encontrarás os Ciclopes ou outros monstros
a não ser que os tragas contigo dentro da tua alma,
a não ser que a tua alma os crie em frente a ti.

Deseja que o caminho seja bem longo
para que haja muitas manhãs de verão em que,
com quanto prazer, com tanta alegria,
entres em portos que vês pela primeira vez;
Para que possas parar em postos de comércio fenícios
para comprar coisas finas, madrepérola, coral e âmbar,
e perfumes sensuais de todos os tipos -
tantos quantos puderes encontrar;
e para que possas visitar muitas cidades egípcias
e aprender e continuar sempre a aprender com os seus escolares.

Tem sempre Ítaca na tua mente.
Chegar lá é o teu destino.
Mas não te apresses absolutamente nada na tua viagem.
Será melhor que ela dure muitos anos
para que sejas velho quando chegares à ilha,
rico com tudo o que encontraste no caminho,
sem esperares que Ítaca te traga riquezas.

Ítaca deu-te a tua bela viagem.
Sem ela não terias sequer partido.
Não tem mais nada a dar-te.

E, sábio como te terás tornado,
tão cheio de sabedoria e experiência,
já terás percebido, à chegada, o que significa uma Ítaca.

Konstantínos Kaváfis.

Sem título.

Penso em ti no silêncio da noite, quando tudo é nada,
E os ruídos que há no silêncio são o próprio silêncio,
Então, sozinho de mim, passageiro parado
De uma viagem em Deus, inutilmente penso em ti.

Todo o passado, em que foste um momento eterno,
É como este silêncio de tudo.
Todo o perdido, em que foste o que mais perdi,
É como estes ruídos,
Todo o inútil, em que foste o que não houvera ser
É como o nada por ser neste silêncio nocturno.

Tenho visto morrer, ou ouvido que morrem,
Quantos amei ou conheci,
Tenho visto não saber mais nada deles de tantos que foram
Comigo, e pouco importa se foi um homem ou uma conversa,
Ou um povo omitido do mundo,
E o mundo hoje para mim é um cemitério de noite
Branco e negro de campas e árvores e de luar alheio
E é neste sossego absurdo de mim e de tudo que penso em ti.

Álvaro de Campos.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Eu.

o tempo passa
e eu não dou por ele.
eu passo,
e a vida não dá por mim.

Pois é.

A vida é a obra, mas a obra não é vida.

Dedicado.

todo o amor do mundo não foi suficiente porque o amor não serve
[de nada. ficaram só
os papéis e a tristeza, ficou só a amargura e a cinza dos cigarros e
[da morte.
os domingos e as noites que passámos a fazer planos não foram
[suficientes e foram
demasiados porque hoje são como sangue no teu rosto, são como
[lágrimas.
sei que nos amámos muito e um dia, quando já não te encontrar em
[cada instante, em cada hora,
não irei negar isso. não irei negar nunca que te amei. nem mesmo
[quando estiver deitado,
nu, sobre os lençóis de outra e ela me obrigar a dizer que a amo
[antes de a foder.


José Luis Peixoto.

Feliz.

Eu fui sempre o paradigma
da mediocridade,
o aluno do canto da
sala, disperso em si
o futuro-qualquer-coisa
sem história, nem resquício
de interesse

Eu fui sempre o sonho
sem caminho
a vontade sem força
a luta sem causa
a causa sem luta
o jovem sem capacidade
o velho sem conhecimento

Eu fui sempre o puto
arrogante
que escrevia
a perguntar-se porquê

E, quando me li,

tive vergonha de mim.

domingo, 17 de agosto de 2008

Rapidinha.

Tudo o que guardarão da minha vida
será a absurda recordação da
minha falta de jeito para viver

A vida irrita-me como um
mosquito impertinente
que tento afastar de mau-grado
com o jornal que não tive vontade
de ler

(Há tão pouco para fazer
E tão pouco por que lutar)

Sei bem o que sou
Sou o que sou
mas não o que queria ser

Talvez fosse mau
se eu me importasse
com o que sou

Também sei muito bem
o que não quero
Infelizmente
não sei o que quero

Não sou nada
Sou alguma coisa
um acaso
uma omissão
a fronteira entre o vazio
e coisa nenhuma
a saudade do mundo

o mosquito impertinente
que matei com o jornal
que não tive vontade
de ler

domingo, 3 de agosto de 2008

Carpir.

Eu não quero esperar uma vida inteira,
para que digam de mim,
"Ah, sujeito dedicou uma vida inteira a tal..."
Eu não quero esperar uma vida inteira,
pelo reconhecimento que só se têm
depois de uma vida inteira!
Uma vida inteira!...
Mas, é tanto tempo,
para quem está já tão cansado de existir...

Perdoem-me, ó convenções!,
não esperar grande coisa da vida inteira...
Quero morrer cedo...Sim,
quero que digam de mim...
"Ah, se sujeito tivesse dedicado uma vida inteira
a tal... Que pena foi, ter morrido assim tão cedo..."

Quero um coro de carpideiras no meu funeral
a chorar o que eu podia ter sido,
se tivesse paciência para a vida inteira!...

sábado, 2 de agosto de 2008

Ficção.

Não.
Já disse que não.
Já disse que não paro.

Deixem-me mergulhar fundo,
na minha prolixa inutilidade.
Mergulhar de cabeça com
o gosto absurdo de nadar
num rio com a foz em lado algum.

Eu sempre fingi perceber a História,
e gostar da Literatura, e de estudar
as grandes obras clássicas, os tratados,
as dinastias, e as dissertações dos Mestres!
Ah, como gostar dos maiores aborrecimentos da História!
E fingi gostar dos elogios das almas
caridosas, que pensavam que eu gostava
dessa prisão, a que se chamou pensar.

Ah, ficção de sujeito!...

Que riso macabro que não me apetece soltar
ao lembrar, estupidez, que elogiavam
um bandalho que não sabe ser!

Bocejo.

-Estes são os dias vazios em que nada acontece,
podia ser o nome do romance que vou ter a glória de não escrever.

Sinto-me cada vez mais sozinho.
Não sei onde estão os meus amigos...

E eu, tão propenso a melancolias,
tão fraco de espírito, tão prolixo na minha descrença,
queria somente uma mapa do porvir.


Apetece-me chorar. Sou um farrapo humano.
Tenho saudades dos amores que não tive e dos troféus que só sonhei...

Ah! Escrever infinitamente até
resolver o Mundo ou me resolver a mim!

Está tudo em que não pensa.
Em quem não pensa.
Em quem não pensa.
Em quem não pensa.

Vingo-me dos reles, dos preguiçosos,
dos vis, dos cobardes, das corjas pútridas,
do Mundo... Vingo-me de já não saber o que sou!
Neste absurdamente inútil gesto de escrever...


Às vezes, perco-me imaginando porque vivem os outros,
os desgraçados, os da sem-fortuna
e penso sentir uma mágoa infinita,
que nunca saberei descrever, por não encontrar resposta.
Mas alegro-me por eles, por serem eles e não eu.

Mas esperem...
Onde é que eu
já ia sem travões
na auto-estrada do que não há?...

(Ah, o longo bocejo de fingir ter escrito
tudo isto!...)

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

É isto.

Eu não quero que pensem como eu.
Eu quero que pensem.

Insónia.

Toda a noite não dormi.
(A solidão que não me larga.)
Nada do que penso escrevo
porque o que penso,
não serve para ser escrito.
Tinjo-me da insípida
cor da falta de glória.
Desmascaro os meus sonhos.
Atiro a razão pela janela.
A minha alma é uma cidade
fria, sem rio, nem mar
onde não estou.


Ah, vida! troco-te
por uma boa noite de sono!
...

Madrid, 28 de Julho de 2008.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

É verdade.

Adoro fracassar para escrever sobre isso.

Dia feliz.

Foi um dia luminoso,
aquele em que me apercebi
que não precisava de viver,
nem sequer de ser feliz.

Que se resolveria se eu fosse feliz?

Munido por esta não-resposta,
Criarei, por mim e pela Humanidade,
assolado pela dúvida: Como ser
original num Mundo onde já foi tudo dito?
Criarei, não-vivendo, procurando não-morrer.
Criarei, com o solo objectivo de aproximar
a humanidade do Humano.

Quero morrer no dia em que não tiver
mais nada para dizer.
Entretanto, preciso de génio,
e não de nome.

Razoável.

Uma razão para ler um livro: falar contigo.
Uma razão para escreveres: falares contigo.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Lamúria rápida.

Que sei eu da vida para me queixar dela?

Queixume impaciente.

Tenho saudades do futuro.

Podridão.

(Resposta à Bárbara)

A noite. Cismo, medito, quase enlouqueço!
Podridão, cara amiga, sempre a houve!
Debato-me comigo, vagueio, entonteço
Clamando a Deus, sabendo que não me ouve

Ah, fina-se a humanidade! A que preço?
Seremos algo que se louve?
O frio. Amiga, quase que me esqueço
de mim. O bem, será que algum houve?

Mas porque enquanto houvermos, o Mundo não pára
Cá estaremos para ir pondo o dedo na ferida
Nadando sempre contra a corrente

Inquietos na inquietação permanente
desta loucura a que se convencionou chamar vida
Fazendo da poesia, arma da paz, como o grande Victor Jara!

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Antonio Machado.

"No extraiñes, dulces amigos
que esté mi frente arrugada;
yo vivo en paz con los hombres
y en guerra con mis entrañas."


Proposta de tradução:
"Não estranhem, doces amigos
esta minha face enrugada;
eu vivo em paz com os homens
e em guerra com as minhas entranhas."


"Caminante, son tus huellas
el camino y nada más;
Caminante, no hay camino,
Se hace camino al andar.
Al andar se hace camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante, no hay camino
sino estelas en la mar."

Proposta de tradução:
"Caminhante, são as tuas pegadas
o caminho, nada mais;
Caminhante, não há caminho.
O caminho faz-se caminhando.
A caminhar se faz o caminho,
e a olhar para trás
vê-se o caminho
que nunca se voltará a pisar.
Caminhante, não há caminho
apenas rastos no mar."

Antonio Machado, Campos de Castela.