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sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Bênção.

Descendo à Terra, Lhe disse solenemente
«- Homem, tudo isto é teu pertence agora
Aqui permanecerás, tranquila e serenamente
E aqui passarás, até que chegue tua hora»

E o Homem, inquietando-se, subitamente,
perguntou: «- Mas, e a Esperança onde mora?
Nada me resta a não ser a Demora? »
«- Não! Nada mais! » rugiu Ele, firmemente.

«A vida não é mais que uma roda de viver
Onde o Bem e o Mal vivem a perdurar
E os dias são teus até o teu Eu acabar

Que seja tua missão a eterna mudança acolher
E tua pior maldição, ao meu repto desobedecer

Eis teu maior pecado, Homem: ambicionar!»

sábado, 18 de julho de 2009

Ad eternum.

Fé misteriosa move os grandes d'uma nação
Desejo louco, enigmático, obscuro
Um tudo indistinto entre sentimento e razão
A invenção, a ideia corpórea do Futuro

Algo que morde, que não acalma o coração
Um querer sem quartel, sem poiso seguro
Talvez mágoa, talvez mera inquietação
Um sentir, um ver, um almejar limpo e puro

Fé misteriosa, sem definição, nem Nome
Saciar impossível de uma incógnita fome
Um correr sem percebida necessidade

Na demanda de algo grande, de maior
Busca d'Amor, da Luz, da Verdade
- o Eterno, meu Mestre e meu Senhor!

segunda-feira, 13 de julho de 2009

A Manuel Alegre.

Duro desafio, derradeiro dilema
A escolha: rés-pública ou a amada poesia?
E uma estranha dor, um estranho problema
- A visão do mais além, do novo dia

Assim, a pena leve, mas quiçá amarga, desfia
O sonho nas linhas do teu eterno poema
E o desejo incontrolável de fim à apatia
Na tua amargurada garganta é principal tema

Sem perceber porquê esperar do Céu
O porvir, o santo-Graal, o almejado sentido
Um Portugal que não volta, o que podia ter sido

O fim desta inquietação, desta ânsia
O novo Mar, o Fim, a distância!
-Pátria Amada, sonho teu, sonho meu …

sábado, 29 de novembro de 2008

Casino.

No casino, o dinheiro rola ao ritmo da Sorte...
Jogador, nada neste Mundo é sorte!
-Jogador, jogando a tua vida até à morte...

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Prisão.

Silêncio, que eu vou ser feliz!
Feliz, feliz para toda a eternidade
Esquecer todas as mágoas e a saudade
E ser tudo o que sempre quis!

Vou fazer as malas para a insanidade!
Vou esquecer tudo o que não fiz!
Ser campo, mar, serra, infinidade!
E perder o significado do que é ser infeliz!

Louco de mim, atingirei a redenção
Porque sou sempre o que não se contenta
Foi na loucura que encontrei a melhor maneira de ser são!

(E é o querer fugir de tudo, sem conseguir!
- a pior prisão é aquela que se inventa -
E agora, que fazer, que estou louco, sem de mim poder fugir?)

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Revolta.

Tenho pena de todos aqueles
que não podem sair do mesmo lugar,
São como eu. Mas como em mim viverá neles
o desejo louco de avançar?

Imóvel, quero viver o vento do caminho
os crepúsculos que enebriam, as livres noites de luar,
a vida sem limites, sozinho
ou com quem, por instantes, me quiser acompanhar.

Ó ânsia sempre nova de explorar o Mundo!
P´ra te obedecer entrei assim
na minha alma e não encontrei fundo...

Dizem que o Universo é curvo e lá tem fim.
O meu não tem; ou então é profundo...
Curiosidade maldita! Perdido seja eu que mergulhei em mim!


Jorge de Sena.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Ditadorzinho.

É um daqueles seres provincianos
(no sentido de ser iletrado, sem cultura)
com poder para coisa nenhuma, com danos
sem engano, e cargo por ganância e usura!

E eu pergunto-me por quantos mais anos
Por quantos mais anos, esta amargura
de ver um reles aprendiz dos antigos tiranos
a fingir-se perito na sua reles a dita, a dura!

E se o ditadorzinho ficar irado, possesso!
Mesmo que me instaure uma queixa, um processo
Mesmo que me fique com os meus últimos cobres

Mesmo que me faça quebrar até aos cacos
Não, não serei mais um dos pobres...
Não, não serei mais um dos fracos!...

terça-feira, 29 de julho de 2008

Podridão.

(Resposta à Bárbara)

A noite. Cismo, medito, quase enlouqueço!
Podridão, cara amiga, sempre a houve!
Debato-me comigo, vagueio, entonteço
Clamando a Deus, sabendo que não me ouve

Ah, fina-se a humanidade! A que preço?
Seremos algo que se louve?
O frio. Amiga, quase que me esqueço
de mim. O bem, será que algum houve?

Mas porque enquanto houvermos, o Mundo não pára
Cá estaremos para ir pondo o dedo na ferida
Nadando sempre contra a corrente

Inquietos na inquietação permanente
desta loucura a que se convencionou chamar vida
Fazendo da poesia, arma da paz, como o grande Victor Jara!

domingo, 20 de julho de 2008

Ontem.

Dá-me a tua mão. Acalma os meus receios.
Deixa-me sentir o doce da tua boca
Não ser eu mais esta indefinição louca!
E poder, eternamente, adormecer em teus seios.

Os meus desejos, os meus objectivos...Lancei-os
ao mar e aos céus! (Num laivo da minha voz rouca
sussurro-te o meu sonho: Ter para sempre a tua boca.)
Afaga-me! Não me deixes só com meus devaneios.

Escuta-me! Ouve esta louca confissão
de quem sabe ter nascido para ser a tua paixão.
Dá-me a tua mão, e diz-me que queres partir.

Escuta-me! Quero ir, contigo ir, apenas ir...
Saber que só contigo sou maior!
E lembrar-te como preciso do teu amor!...

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Homenagem a Camões.

"Através do imitado sentimento,
Ao ler-te, quanta vez tenho sentido
Como é muito maior o amor vivido
Em acto não, mas só em pensamento.

Então invento o que amo e amo o que invento,
Em coisas sem razão tão comovido
Que o ar me falta e o respiro comprimido
Não sei se dá, não sei se tira o alento.

Sabor de amor é esse alto respirar,
Essa angústia em suspiros mal dispersos,
Em amor, que importância tem o ar,

O ar, cheio de fantásticas acções!
Assim, aquele que imitar teus versos,
Primeiro imite o teu amor, Camões."

Dante de Milano.

sábado, 12 de julho de 2008

A António Aleixo.

"Vós que lá do vosso império/prometeis um mundo novo/
calai-vos, que pode o povo/qu'rer um mundo novo a sério."


Concluir: Viver é sofrer. E tu foste a prova dura

desta horrenda e maldita frase feita.
Penaste em todas as ruas da amargura

No teu caminho não houve senão desgraça e maleita

Não foste homem das Letras, mas a tua lira é singela e pura
avançando mordaz, humilde, mas assim, perfeita.
Para a dor toda do Mundo não descobriste cura,
mas a tua mão contra ela sempre avançou escorreita.

Quer um Deus desconhecido que não haja justiça,
mas culpa de quem, se não se vê senão cobiça?
E em nome da Democracia urge matar...

Ergueste-te, lírico imortal, acima dos teus iguais
E assim, na Arte da vida, juntaste-te aos imortais.
(A vida não é para sofrer. Quem vem querer acreditar?)


segunda-feira, 7 de julho de 2008

Soneto do trabalho.

Vamos, vamos companheiros! Levar
mais alto o nome de Portugal!
Vamos, vamos criar, lutar, e amar!
e fazer deste povo imortal!


Vamos, vamos erguer a distância
conquistar a terra e o outro mar!
Navegar movidos de ambição e ânsia
É preciso nunca deixar de sonhar!

Vai ser difícil, mas feitos de nobreza
não penaremos na amargura e na tristeza
E levaremos Portugal ao infinito!

(Que voz é que fala de dentro de mim
e me diz que são tudo balelas sem fim
de fraco contento para um povo triste e aflito?!)

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Mijando ao Mondego.

Encontrava-me, certo dia, mijando ao Mondego
Celebrando como os outros, a Deusa Minerva
Oh e quão belo, sincero e sagrado sossego
Que senti naquele momento de leda soberba


Mas de repente, já pensando, oh desassossego

d´alma, que havia por contente
. Quanto me enerva
ver os que louvando à Deusa, tamanho desapego

lhe demonstram, preterindo-a por Baco e pela treva

Lamentei a muito má fama e muito triste sina
dos que vivem por contentados, esquecidos do céu
não esperando mais que a parca virtude divina.

E que vivendo na muito nobre cidade do Conhecimento
Deviam por mais ainda, ambicionar como Prometeu
Mas que vivem desperdiçando sua arte e seu talento!

sábado, 21 de junho de 2008

A Fernão de Magalhães.

À noite, vigia e vela pelo estreito de seu nome,
aquele que veio, na hispânica armada
Sem lealdade, mas português na alma ousada

Conquistar o mar e imortalizar-se em renome.


Roga solitário pela alma dos seus, que a Morte some
À partida, mais de duzentos, dezoito só à chegada
Que para cumprir o sonho da sua alma iluminada

Padeceram de escorbuto e mui grave fome.

Não precisa agora imaginar quão belo o Mundo
se lhe afigura depois do esforço heróico e fecundo

Dele nos fica
o seu sonho e a sua loucura.

Dos que padeceram, não reza deles a História
Deram o corpo e o sacrifício, não tomaram a glória.
Viagem tão amarga, para País tão sem ventura...

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Língua Portuguesa.

"Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...

Amo-te assim, desconhecida e obscura.
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,

E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

em que da voz materna ouvi: "meu filho!",
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O génio sem ventura e o amor sem brilho!

Olavo Bilac.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Pai.

Pai, só tu sabes o que não és. O que poderias
ser. Sou tudo o que me iluminaste, e o que não
me ensinaste. Já sonhámos amanhãs e utopias

Agora, sonha-los sozinho, e a saudade é canção.


Sei, pai, há momentos, segundos, horas, dias,
em que te custa ser, em que o Mundo é vão...
Mas, pai, agradeço-te. O saber e as alegrias.
Iludo-me especial, mesmo que o Mundo seja Sansão.

(Ilusão é engano, realidade é névoa verdade.
Todo o bulir é inútil, todo o Mundo é saudade...)
Mesmo que sirva de pouco, sou realidade e ilusão.

(Nada é bem, nada é mal. Tudo é igual e relativo.)
Lerão numa tarde, tudo o que fui enquanto vivo.
Ó pai, diz-me afinal há alguma razão?

sábado, 14 de junho de 2008

O homem do violino.

Dormia de faces cansadas, o homem do violino
Tocava antes, para quem o ouvia, um triste fado
mal suportando a sua cruz no caminho caminhado
pregando aos deuses, quiçá, por um melhor destino.

Em movimentos maquinais,
o seu melancólico hino
enchia de nada, todos à sua volta. Enlutado,
parecia clamar contra a condição a que estava condenado
"Mais valeria morrer. Quanto mais vivo, mais me fino"

Gritava-o, sem palavras, retidas num eco absurdo
no povo da cidade, que não o ouvia ocupado e surdo.
"Que dor, que fim, que vazio em que imergi."

Talvez dissesse, talvez murmurasse, que é assim
Que para a miséria e para a ignorância não há fim...
Imortalizo-te, homem só, herói sem causa, aqui.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Mãe.

Mãe, não há afinal maior poder que escrever
Enquanto te escrevo, contemplo-te sorrindo
distraída, brincando com o teu ingénuo, lindo
e amado companheiro. Quem nos dera ser

ele, ou como ele. Brincar, dormir, comer
Sonhar acordado e sonhar dormindo
Sem aflições e tormentos, fingindo
a vida, sem nunca a viver ou conhecer...

A realidade dói, sei-o bem. Mas é a desejada.
Para nós é tudo. Para ele é nada.
Ó mãe como queria revelar-te, mostrar-te

O quanto do que sou eu é teu, parte de ti.
Mas reconheço ser mera utopia. O que senti
É o que nunca senti. A eterna promessa: amar-te.

Enterremo-nos a rir.

Os moços e as senhoritas, oh quão era especial
a ocasião!, tardaram na sua limusina
matizada de beije. Vinham vestidos de Portugal
desnudados da arrogância que não ilumina

Decadentes, pecaminosos, ao falso Graal

ambicionaram, julgando-se, virtude que se fina!

importantes, imortais, algo de magistral!

Sorrindo, da sua condição quase divina!


Naquele momento, ó vergonha, ó inveja
ó angústia, imensa, intensa e raivosa
de não ser falso e novo rico. Que seja

assim, pobre, mas lúcido. Sentir

e saber que somos todos a langorosa

miséria em que nos enterramos, a rir!

terça-feira, 10 de junho de 2008

A Manel Cruz.

Num palco lúgrube e ignorado, ouço a tua voz
melódica e apaixonada, num eco doentio
que me enlouquece, em mordaz hino aos sós.
Ó irmão, fazes-me sentir, mas deixas-me frio!

Interrogo-me, extasiado, o que é diferente em nós?
Não nos chega passar inconsequentes como o rio?
Serenos insubmissos de uma Babel feroz
Que torna qualquer destino inútil, vão, baldio...

Viva prova dum povo que se ensurdece e ignora
o génio, familiar à dor de sentir com a razão,
e de não se bastar com a vida . Por agora,

Ouço-te, e vou adormecendo no teu agridoce leito
de palavras, sons, amor, dor e lúcida insatisfação
Sonhando. (Ah, o Mundo é para quem nasceu satisfeito...)