Duro desafio, derradeiro dilema
A escolha: rés-pública ou a amada poesia?
E uma estranha dor, um estranho problema
- A visão do mais além, do novo dia
Assim, a pena leve, mas quiçá amarga, desfia
O sonho nas linhas do teu eterno poema
E o desejo incontrolável de fim à apatia
Na tua amargurada garganta é principal tema
Sem perceber porquê esperar do Céu
O porvir, o santo-Graal, o almejado sentido
Um Portugal que não volta, o que podia ter sido
O fim desta inquietação, desta ânsia
O novo Mar, o Fim, a distância!
-Pátria Amada, sonho teu, sonho meu …
segunda-feira, 13 de julho de 2009
A Manuel Alegre.
sábado, 12 de julho de 2008
A António Aleixo.
calai-vos, que pode o povo/qu'rer um mundo novo a sério."
Concluir: Viver é sofrer. E tu foste a prova dura
desta horrenda e maldita frase feita.
Penaste em todas as ruas da amargura
No teu caminho não houve senão desgraça e maleita
Não foste homem das Letras, mas a tua lira é singela e pura
avançando mordaz, humilde, mas assim, perfeita.
Para a dor toda do Mundo não descobriste cura,
mas a tua mão contra ela sempre avançou escorreita.
Quer um Deus desconhecido que não haja justiça,
mas culpa de quem, se não se vê senão cobiça?
E em nome da Democracia urge matar...
Ergueste-te, lírico imortal, acima dos teus iguais
E assim, na Arte da vida, juntaste-te aos imortais.
(A vida não é para sofrer. Quem vem querer acreditar?)
sábado, 21 de junho de 2008
A Fernão de Magalhães.
À noite, vigia e vela pelo estreito de seu nome,
aquele que veio, na hispânica armada
Sem lealdade, mas português na alma ousada
Conquistar o mar e imortalizar-se em renome.
Roga solitário pela alma dos seus, que a Morte some
À partida, mais de duzentos, dezoito só à chegada
Que para cumprir o sonho da sua alma iluminada
Padeceram de escorbuto e mui grave fome.
Não precisa agora imaginar quão belo o Mundo
se lhe afigura depois do esforço heróico e fecundo
Dele nos fica o seu sonho e a sua loucura.
Dos que padeceram, não reza deles a História
Deram o corpo e o sacrifício, não tomaram a glória.
Viagem tão amarga, para País tão sem ventura...
segunda-feira, 16 de junho de 2008
Mensagem.
Tendo um povo sido imortal
Em mim tristeza não cabe
de ver que querer não sabe
E que vive, por lágrimas de sal
a esperar um qualquer falso Graal
Agridoce pátria, minha amada
Amo-te, com todos os teus defeitos
Vives inconsciente dos teus proveitos
e só da saudade lembrada,
num fogo de ansiedade apagada.
Um mar de azul eterno e triste
Um caldeirão de calma
indiferente, ser sem alma
Império que não existe,
ambicionar que não resiste.
Põe uma bomba no Destino,
pátria amada! Renega o teu Fado,
clama, és tu o Desejado.
Acorda, renasce, nada é Divino
Tudo és tu, em melancólico hino...
Lembra o passado, vê o futuro
Ama, ambiciona, almeja!
Cria-se o Mundo, quando se deseja.
Descobre o horizonte obscuro
Eu serei teu servo, enquanto duro...
terça-feira, 10 de junho de 2008
A Manel Cruz.
Num palco lúgrube e ignorado, ouço a tua voz
melódica e apaixonada, num eco doentio
que me enlouquece, em mordaz hino aos sós.
Ó irmão, fazes-me sentir, mas deixas-me frio!
Interrogo-me, extasiado, o que é diferente em nós?
Não nos chega passar inconsequentes como o rio?
Serenos insubmissos de uma Babel feroz
Que torna qualquer destino inútil, vão, baldio...
Viva prova dum povo que se ensurdece e ignora
o génio, familiar à dor de sentir com a razão,
e de não se bastar com a vida . Por agora,
Ouço-te, e vou adormecendo no teu agridoce leito
de palavras, sons, amor, dor e lúcida insatisfação
Sonhando. (Ah, o Mundo é para quem nasceu satisfeito...)
segunda-feira, 2 de junho de 2008
A Fernando Pessoa.
A mim, basta-me o pouco de me bastares
Mas é enorme, inarrável, pútrida a minha dor
De não ser inteiro, ó lírico Adamastor
E de sentido e sentir só tu me dares....
(Se bastasse a cada homem, ser maior
do que é!) Tu percorrias-te, por infindáveis mares.
Encontravas-te, em sonhos de outros lugares
Na hetorónomia de outros mundos com valor...
Mas são tudo sonhos vãos, e é na escrita
que me refugio, que me escondo, e me revejo
Mesmo que até ela seja desnecessária e maldita.
Leio-te, saúdo-te, e cada vez menos sou eu
Que lesses este soneto, era o meu único desejo
Poder, companheiro, ouvir a tua voz no céu!
segunda-feira, 19 de maio de 2008
A Florbela Espanca.
ao observar tua triste face, bela poetisa
Cantando o amor, a tristeza e a saudade!
Teus olhos amendoados, tua voz lúcida, tudo matiza
Em mim a negra expressão de verdade
de quem sabe sentir Amor que hipnotiza
que enlouquece, que goza, moca e satiriza
a nossa eterna condição de Orfeus sem metade
Ó trágica mulher, constante poetisa da dor
de canções ingratas e de enorme sofrimento
Como te compreendo! É para ti este meu beijo de poesia
Um dia, companheira,todos saberão o que é Amor
A sua loucura, o seu prazer, o seu tormento!
Um dia, seremos todos o que não foste. Um dia...
sábado, 17 de maio de 2008
A Bocage.
Inimigo de alcoviteiras, cabrões e frades
Lírico de fronte honesta, certeira e directa
Dono de mil paixões, de carne macia e dilecta
Se fôssemos contemporâneos, éramos compadres!
Contestando os hipócritas de meias-verdades,
e os sonsos de malformação, foste profeta
de um povo, que ainda não se detecta
ter perdido as manias ou as habilidades!
Clamo-o sem maldade ou algum veneno!
Ó lírico companheiro, sinto-me pequeno
e se o tenho ou se me resta algum talento!
(Escutai-me bem, só por um momento)
É dedicado a ti, Bocage, este meu avacalho
Quem não gostou pode bem ir p´ró caralho!
quarta-feira, 14 de maio de 2008
A Almada Negreiros.
“O povo completo será aquele que tiver reunido no seu máximo todas as suas qualidades e todos os seus defeitos.
Coragem, Portugueses, só vos faltam as qualidades." -Almada Negreiros.
E é este o meu país, de um verde pujante e salutar
Da gente tranquila, humilde e honesta, mas impotente
De políticos e as suas promessas do hoje eternamente
Do eterno mar pintado de azul, e do azul e eterno pesar...
Das queixas e dos queixumes, do deixa andar,
do o que eles querem todos é o mal da gente,
da fé e da esperança, do contentamento descontente,
Do seja o que Deus quiser, e do ver no que vai dar...
Do povo que nos rankings das desgraças é primeiro
Do povo que não economiza, esbanjador, o dinheiro
E que vive agarrado à pior gangrena, vil, vil tristeza!
Mas há (sempre houve!) solução para esta nossa empresa!
Ela está (sempre esteve!) no querer, na ambição!
No interior de cada um! Não fiquemos pela intenção...
sábado, 12 de abril de 2008
A Cesário Verde.
Estou lendo o Sentimento d´um Ocidental
já lido em tempos passados
Lido com olhos vários e desalmados
E só agora, o sentindo como é - imortal.
Há tanta melancolia em mim,
e na cidade, e no campo e no Mundo!
Como te percebo, ó poeta deambulador e vagabundo!
(É condição escrever de quem sente assim?)
terça-feira, 8 de abril de 2008
A Arlindo Vicente.
demasiado cedo,
quantos homens nunca ousaram
Quantos homens há
Quantos homens nunca serão
Arlindo foi Homem, porque se soube realizado.
Foi Homem, porque nunca cedeu a arrastar-se no chão.
Tomou-lhe o gosto. E foi o que precisava ser.
Diferente.
Este Homem. O Homem a quem chamaram Vicente.
sábado, 29 de março de 2008
A José Régio.
Nunca seguir ninguém
não ser nem mal, nem bem.
Procurar sempre o derradeiro além...
Foi essa a tua última e maior glória.
Mas que má hora é esta,
em que Portugal entristece?
Em que a irreverência fenece?
Em que nada resta,
senão tua vã memória...
A José Gil.
O que é Portugal hoje?
Não é medo de existir.
Medo sim de ser.
Medo de se descobrir.
Medo de se fazer.
Medo de se cumprir.
E pior de tudo,
medo de pensar.
Somos um existir, vago e desnudo,
que eu morro a profetizar...
A Manel Cruz.
Mítico Ornato.
Uma voz de excepção,
melódica e apaixonada.
Fino e raro estrato,
de uma medíocre cultura.
Em cada tua canção,
ouve-se a dor,
não a tua, mas a pensada.
Porque se amor é doença,
e não cura
que seja a pior sentença,
e tortura,
de quem não te dá valor...
A Siza Vieira.
Olhando o futuro, deixas obra feita.
De Portugal,
Falta curar a pior maleita.
A falta de profissionalismo...
A vida é o eterno aprender.
Não se sai do imobilismo,
Se isso custa entender...
A Joaquim Agostinho.
Lutando contra duros ventos
e enfrentando estradas e tormentos.
Dono de coragem, a cruz que empenhas.
Todo o herói é sacrifício.
Vida e morte, no ciclismo.
Como bandeira mor, do heroísmo.
Dai-nos tua hercúlea força, para o novo início...
A Saramago.
Poderosa escrita,
a pequena arma de mudança
no misto da sociedade maldita,
que o pensar não alcança.
Da ironia, nasce esperança.
Atento vigilante das causas sociais
Cada frase tua é como uma lança
Apontada, às injustiças demais.
Alma triste,
a que não ama,
de arma apontada em riste.
A que chafurda na lama,
do ser.
A que não deseja mais
do que apenas ter...
sexta-feira, 28 de março de 2008
A Sá Carneiro.
Democrata essencial
Para perceber Portugal.
Membro da ala Liberal
do partido único tirânico.
Manter fiéis os princípios,
é a tua lição clássica.
Da lusitana democracia
Um dos pais fundadores
E dos seus mais brilhantes oradores.
Pereceste cedo, morte trágica,
Ficou o perfil, quase sebastiânico.
Esperámos.Os espíritos estão insípidos
Será que és tu aquele que nos salvaria?
quinta-feira, 27 de março de 2008
A Herman José.
Humorista contra a maré
Bom apreciador dos prazeres faustosos
Personalidade polémica
De caminhos venturosos.
Agora, velhote José.
Lutaste contra a imposta fé,
e a dolorosa censura,
feita de forma colérica.
Hábito que perdura...
Toda a carreira artística
tem uma ascensão e uma queda,
infinitamente característica.
A tua, feita de forma leda.
Não sei se és herói.
És apenas mais um homem,
que sabe o que dói,
Ser a diferença, como ninguém...